Espelhos (para clarinete), de Marcos Pantaleoni

Em primeiro lugar, a abundância de espelhos. Se há espelho, é estágio humano quereres ver-te nele. Mas nestes não te vês. Tu te procuras, buscas tua posição no espaço na qual o espelho te diga “estás aqui, e és tu mesmo”, e acabas te danando todo, te aborrecendo, porque os espelhos de Lavoisier, sejam côncavos ou convexos, te desiludem, escarnecem de ti: arredando-te, tu te encontras, mas depois te deslocas e te perdes. Aquele teatro catóptrico fora disposto para tolher-te toda identidade e fazer com que sintas inseguro de teu lugar (...). E te sentes não apenas inseguro de ti mas igualmente dos objetos colocados entre ti e outro espelho. (Umberto Eco, “O pêndulo de Foucault”)

Minha peça foi inteiramente estruturada por espelhos que resultaram da justaposição de diferentes divisões regulares de um mesmo tempo. Desta justaposição, surgiram espaços de tempo menores os quais sofreram o mesmo processo, ou seja, a justaposição de diferentes divisões; e fiz o mesmo com as partes menores que foram surgindo até chegar em estruturas rítmicas também espelhadas. Este processo de divisão de um tempo imaginário e vazio gerou – antes de começar a trabalhar com sons – coerência formal, estrutural e rítmica que deram base às notas que escrevi para o clarinete. No que diz respeito à organização das alturas, o uso de quartas justas e aumentadas resultam em sonoridades que mudam conforme a intersecção entre as quartas, ora de segunda maior, ora segunda menor. Quanto à forma, são duas grandes partes – a segunda espelho da primeira – cada uma contendo sete espelhos menores. Mas estas estruturas que chamo por espelhos não são percebidas de forma clara na escuta, pois como nos “espelhos de Lavoisier”, não há reflexos exatos, e sim distorcidos de variadas formas. Os espelhos I e simetrias resultantes não estão presentes na música que se ouve mas apenas na estrutura que está por detrás desta. Interessante é que enquanto na partitura os espelhos estão dispostos num espaço bidimensional, a música reproduz no tempo algo parecido com fatos que nos acontecem e a maneira como os recordamos. A lembrança além de imprecisa, às vezes percorre o caminho inverso dos fatos passados.

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clarinete: Luiz Alberto Requejo

BULA

  • interpretações com excessivos rubatos devem ser evitadas;
  • a indicação “//” implica uma pequena cisura mas não respiração;
  • “(#) ou (b)” aparecem quando as notas alteradas são repetidas em seguida por várias vezes;
  • notas sem haste com com “tr” e indicação “ad lib.” devem ser tocadas sem muita exatidão metronômica para o trillo poder soar com clareza;
  • no final da peça pede-se para atacar o trillo e desacelerar as notas do mesmo até atingir os valores escritos.

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Mais sobre Luiz Alberto Requejo: http://www.youtube.com/user/LuisAlbertoRequejo#p/u

PRESTO editoração de partituras

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